PÓS GRADUAÇÃO EM TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO
O TRABALHO COM MODOS NA TERAPIA DO ESQUEMA
Apresentado por
RICARDO B. MELLO
Rio de Janeiro
Outubro de 2015
RICARDO B. MELLO
O
TRABALHO COM MODOS NA TERAPIA DO ESQUEMA
Trabalho
de Conclusão de Curso apresentado como exigência da disciplina TCC do Curso de Pós-Graduação
do Centro Universitário Celso Lisboa, orientado pelos Professores Gil Gomes e
Clystine Abram Oliveira Gomes.
Rio de Janeiro
Outubro de 2015
CENTRO UNIVERSITÁRIO CELSO LISBOA
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TERAPIA
COGNITIVO-COMPORTAMENTAL
Elaborado
por
RICARDO B. MELLO
O TRABALHO COM MODOS NA TERAPIA DO ESQUEMA
Data da aprovação: _____/ _____/ ________
Banca
examinadora
__________________________________
Profª Clystine
Abram Oliveira Gomes- Coordenadora do Curso de Pós-Graduação em Terapia
Cognitivo-Comportamental
__________________________________
Profº
Gil Gomes – Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Terapia
Cognitivo-Comportamental
Rio de
Janeiro
Outubro de 2015
RESUMO
Neste
artigo, foram detalhadas e analisadas as estratégias vivencias e cognitivas aplicadas
na terapia do esquema, em especial o trabalho com "modos de
esquemas", que constituem numa prática psicoterápica avançada e que representa
a essência da linha de trabalho da Terapia do Esquema criada pelo Dr. Jeffrey
Young, podendo ser aplicada não apenas no tratamento de transtornos do Eixo I e
II, mas como em qualquer tratamento no dia a dia da prática clínica. O trabalho
com modos, portanto, se constitui numa poderosa ferramenta e estratégia de
trabalho para o psicoterapeuta, merecendo com isso um estudo à parte e um
entendimento mais profundo do seu conceito. O trabalho com modos é considerado uma
inovação, um avanço, um passo além da abordagem cognitivo-comportamental
tradicional, pois permite ao psicoterapeuta mobilizar um arsenal de diferentes
práticas terapêuticas como a Psicodinâmica, a Gestalt, a TREC (Ellis), a
TCC (Beck), a Terapia Dialética Comportamental, o Mindfulness, a
Hipnoterapia, a Terapia do Afeto entre outras. Na verdade, qualquer técnica
psicoterápica pode ser utilizada no contexto do trabalho com os modos de
esquemas. Vai depender da característica individual do paciente, sua resposta e
evolução ao tratamento e também a experiência do psicoterapeuta. Além dessa
vantagem, uma outra vantagem de se trabalhar com modos de esquemas é que obriga
o psicoterapeuta a rever detalhadamente o histórico familiar do paciente, em
especial a relação parental remota, suas primeiras experiências de vida, a
dinâmica familiar e social na infância, suas frustrações e necessidades
emocionais não atendidas, os quais, no âmbito conceitual da terapia do esquema,
são os processos geradores dos esquemas e consequentes transtornos do paciente.
Portanto, trabalhar com modos de esquema dentro do conceito da terapia do esquema
é uma abordagem completa, efetiva e profunda. A terapia do esquema da grande
ênfase e desenvolvimento na habilidade do terapeuta na questão que envolve a
relação terapêutica com o paciente. Essa habilidade é quase uma peça
fundamental para o sucesso dessa abordagem psicoterapêutica, além de tirar o
psicoterapeuta e o paciente da suas respectivas
zonas de conforto.
Palavras-chave: Esquemas. Modos. Psicoterapia
1. INTRODUÇÃO
Este trabalho foi baseado predominantemente na concepção teórica
do Dr. Jeffrey Young descritas em seus dois livros, além da colaboração e
inspiração de diversos sítios, vídeos e livros acerca do tema, principalmente
no que diz respeito a ideia dos modos como partes independentes, estanques e
até contraditórias que compõe a personalidade do indivíduo. Sendo assim, se
destacam o trabalho do Dr.
Peter K. Gerlach, membro do NSRC (National Stepfamily Research Center) e sua
experiência de mais de 30 anos como psicoterapeuta familiar onde o trabalho com
“subselves”, “subpersonalidades”, frustrações e feridas emocionais na infância
que influenciam os comportamentos neuróticos atuais do indivíduo, se relacionam
perfeitamente com o trabalho do Dr. Jeffrey Young na Terapia do Esquema, em
especial o trabalho com os modos. Também serviu como inspiração e embasamento teórico
a experiência e ideias do Dr. Jonh Rowan. Dr.Rowan é um eminente psicoterapeuta
britânico que criou a base teórica da “terapia transpersonal” que diz respeito
à desconstrução das nossas “máscaras”, as quais ele classifica como “subpersonalidades” o que também se coaduna
com a base do trabalho com modos na Terapia do Esquema do Dr. Jeffrey
Young.
É ressaltado que a
abordagem com os modos para situações do dia a dia, fora do contexto da psicoterapia,
talvez seja um dos principais legados, depois, evidentemente, da cura dos esquemas,
haja visto que os pacientes ganham importante expertise e experiência suficientes
para trabalhar com os modos de forma autônoma e independente, lidando com seus
desafios e experiências de vida, adquirindo considerável aumento da autoconsciência,
maturidade psicológica e inteligência emocional.
Nos capítulos,
primeiramente, será dado ênfase e profundidade ao conceito de modos dos
esquemas e suas diversas nuances e desdobramentos começando pela definição,
passando pelas classificações e funcionamentos de cada modo. Em seguida, será
apresentado um exemplo de caso clínico real onde foi aplicado e vivenciado pelo
psicoterapeuta o conceito do trabalho com modos, demonstrado assim sua
efetividade, bem como as dificuldades naturais da aplicação dessa abordagem.
São sugeridas correções de rumos das sessões diante dos problemas enfrentados.
Foram detalhados e aprofundados cada passo ou procedimento, assim como as
reações da paciente em questão e sua evolução gradativa.
2. ORIGEM E DEFINIÇÃO DE MODOS
2.1 Origem
O conceito de
modos de esquema foi desenvolvido por Jeffrey Young e equipe
(Young,2008),inicialmente para tratar pacientes portadores de transtorno
de personalidade borderline tendo em vista o número
expressivo tanto de esquemas como de respostas aos
esquemas apresentados por esses pacientes, além da característica instabilidade
emocional. As constantes oscilações se mostravam muito problemáticas no
desenvolvimento e progresso da terapia. Ora os pacientes se mostravam motivados
e comprometidos, ora indiferentes e rebeldes, ora deprimidos, ou nutriam
intensa raiva, para num momento seguinte, cambiar para um distanciamento. Esse
conjunto de fatores se mostrou muito difícil de lidar pelo psicoterapeuta
comprometendo a efetividade dos resultados.
A conclusão é que se
precisava agrupar e definir melhor os esquemas para torna-los
mais manejáveis na terapia.
2.2 Definição de modo
É o conjunto de
esquemas adaptativos ou desadaptativos com seus respectivos estilos de
enfrentamento que são ativados no indivíduo em determinado momento os quais se
agrupam em partes do self. O modo não é a pessoa como um todo é uma “parte”
dela. Pode ser denominado como “sub-self” ou “subpersonalidades” (ROWAN, 1993).
Quando ouvimos expressões
do tipo: “meu lado criança”, “minha parte emotiva”, “meu lado crítico”, etc,
isso, na verdade, são os modos ativados na experiência. Além disso, modos são estados
emocionais, cognições e reações físicas ativados ao mesmo
tempo (pelos esquemas) como resposta a determinadas experiências e
situações de vida, as quais somos supersensíveis. Em síntese, os modos são
respostas aos esquemas. O estado emocional e consequente comportamento que
apresentamos em determinados momentos e situações se chamam “modo do esquema”. Na linguagem psicodinâmica
os modos são “entidades” com personalidade própria e característica autônoma,
independente e estanque tanto dos outros modos como do self. Esses modos não estão
conscientes uns dos outros e podem ter diferentes nomes, apelidos, idades,
gêneros, histórias, memórias e funções
(GERLACH em: http://sfhelp.org/gwc/personality.htm) .
Modos são como tijolinhos
de diversos tamanhos, espessuras, cor e característica que compõe o self como
um todo, como um mosaico disforme ou um quebra-cabeças. Muitas dessas peças não
se encaixam deixando o retrato desse self disforme e irreconhecível. O
indivíduo psicologicamente saudável tem modos reconhecíveis e identificáveis,
que funcionam harmônica e funcionalmente. São flexíveis, conscientes, coerentes
e não dissociativos, compondo com harmonia um self unificado e bem definido. O
funcionamento disfuncional dos modos faz com que eles sejam rígidos, fortes,
inconscientes e dissociados do self, semelhante a um indivíduo com transtorno
dissociativo de identidade. Esses modos são desarmônicos e caracterológicos.
Quando um indivíduo tem um
esquema, não significa que ele esteja ativado o tempo todo, portanto,
os modos podem ficar “hibernados” dependendo das condições ambientais e de vida
favoráveis a não ativação dos gatilhos dos esquemas.
Cada paciente exibe
determinados modos de esquemas característicos dos seus esquemas nucleares e
secundários os quais são agrupados nesses modos. Muitas vezes esses modos são contraditórios
e entram em conflito dependendo do ambiente e contexto vivido pelo paciente.
Exemplo: um paciente com esquema nuclear (principal) de defectividade cuja
resposta é o da “criança vulnerável” (resignação) ativado apenas para
relacionamentos. O paciente fica carente, sofrido, inseguro. Entretanto, no
contexto profissional, esse mesmo paciente apresenta um outro modo (criança
exemplar), hipercompesando o esquema de defectividade, criando um esquema
secundário subjacente de arrogo/grandiosidade ou busca de aprovação e
reconhecimento. Sendo assim, no ambiente
de trabalho o paciente se comporta de modo confiante, arrogante e “exemplar”,
totalmente oposto ao que costuma operar fora do trabalho. A situação ficaria
ainda mais confusa, conflitante e bizarra caso esse mesmo paciente se relacionasse
afetivamente com alguém do seu ambiente de trabalho, parecendo sofrer de
transtorno dissociativo de identidade.
Os modos dos esquemas
podem ser adaptativos, funcionais ou desadaptativos, disfuncionais.
Modo
desadaptativo ou disfuncional se apresenta como respostas de enfrentamento que
provocam emoções desagradáveis e comportamentos autoderrotistas que dominam por
completo a personalidadedo indivíduo. Em
qualquer momento ou situação, alguns dos nossos esquemas e respostas a esses esquemas
podem estar ativos ou inativos. Vai depender de qual situação que ativará ou
não o gatilho de um esquema específico. Consequentemente, o nosso humor está
diretamente atrelado a essa condição. Dizemos que estamos operando no “modo do
esquema” quando esses gatilhos tiverem sido ativados.
O
trabalho com modos visa a ajudar os pacientes a cambiar as respostas
disfuncionais aos esquemas ativados para modos mais funcionais e adequados, mas
isso leva tempo, esforço, habilidade do terapeuta além de paciência,
comprometimento e motivação do paciente. É travada uma batalha contra os
esquemas e suas respectivas respostas disfuncionais. O objetivo final da
terapia do esquema no trabalho com os modos é adquirir consciência psicológica (Young,2008). O terapeuta
ajuda os pacientes a identificar os seus esquemas ao nível intelectual e
emocional o que envolve recuperar e trabalhar as memórias de infância, emoções,
reações físicas, cognições e estilos de enfrentamento para que os pacientes aprendam
a exercer controle sobre suas respostas e as tornem mais funcionais e
“ecológicas” no sentido de coerência com a situação e o ambiente.
A
terapia do esquema na sua estratégia cognitiva e vivencial onde o trabalho com
modos é a principal “arma” no combate aos esquemas disfuncionais, cria novos
caminhos e sinapses cerebrais no córtex pré-frontal possibilitando um controle
consciente efetivo das reações emocionais amigdalianas onde as experiências que
causaram os esquemas foram gravadas, enfraquecendo essas memórias, emoções,
sensações corporais, cognições e comportamento associados a eles.
Não
é possível eliminar os esquemas a não ser que as memórias remotas fossem
apagadas como no filme “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças”.
Em
resumo, os modos variam de um indivíduo para outro em várias dimensões (Young,
2008, p.53):
Dissociado < ====> Integrado
Não
reconhecido <====> Reconhecido
Desadaptativo <=====> Adaptativo
Disfuncional <=====> Funcional
Extremo <=====> Moderado
Rígido <=====> Flexível
Puro <=====> Mesclado
No
indivíduo equilibrado, o modo “adulto saudável” é mais forte, frequente e
presente e pode moderar e curar modos disfuncionais. Por exemplo, quando sentem
raiva, o modo adulto saudável impõe um comportamento adequado e equilibrado,
impedindo que as emoções saiam de controle. Por outro lado, pacientes com
transtorno de personalidade borderline, por exemplo, geralmente tem um modo
adulto saudável fraco de forma que quando o modo criança zangada é ativado o
comportamento fica incontrolável.
Young
identificou dez modos de esquema agrupados em quatro categorias (Young,2008):
·
Modos criança: criança vulnerável, criança zangada,
criança impulsiva/indisciplinada, criança feliz
·
Modos enfrentamento disfuncional: o capitulador
complacente, o protetor desligado e o hipercompensador
·
Modos pais disfuncionais: pai/mãe críticos e
exigentes e pai/mãe punitivos
·
Modos adultos saudáveis.
Na
terapia, podemos, em conjunto com o paciente, dar apelidos a cada um dos
modos. O modo criança zangada pode ser
apelidada de “modo Pit Bull”. A criança vulnerável pode ser o “modo menina
carente”.
O
objetivo do trabalho com os modos é acessar a criança vulnerável onde residem
os esquemas nucleares: a criança abandonada, a criança abusada, a criança
rejeitada ou a criança privada e fazer a reparação parental liberando a raiva,
a mágoa, a frustração e o ressentimento recalcados causadores dos esquemas, por
intermédio do modo adulto saudável, promovendo a cura.
A
criança zangada é a parte do self que está com raiva por não ter tido suas
necessidades emocionais atendidas e com isso age com base nessa raiva sem medir
as consequências.
A
criança impulsiva/indisciplinada também não mede as consequências de seus
impulsos e desejos do momento e age de maneira irresponsável e negligente tanto
para o si mesma como para outros.
A
criança feliz é aquela cujas necessidades emocionais básicas foram atendidas
satisfatoriamente.
Cada
modo e suas respectivas respostas de enfrentamento costumam se manifestar em um
ou mais grupos de esquemas, por exemplo, no modo “criança vulnerável” (o mais
problemático e objeto de trabalho terapêutico), a sensação é de desamparo,
impotência e vitimização. A “criança” se mostra assustada, triste, ansiosa e
frágil. Nesse modo, podem ser ativados vários esquemas ao mesmo tempo, em
cadeia, como o esquema de defectividade, abandono, privação emocional,
vulnerabilidade. Pacientes bordeline costumam apresentar essa condição.
A
criança zangada tem muita raiva acumulada e reprimida e este modo pode ativar
esquemas de subjugação (hipercompensado), postura punitiva, privação emocional,
arrogo e grandiosidade.
3.
MODOS
DE ENFRENTAMENTOS DISFUNCIONAIS
São
três os modos de enfrentamento disfuncional: o capitulador complacente, o
protetor desligado e o hipercompensador (Young,2008).
Esses
três modos correspondem aos três estilos de enfrentamentos dos esquemas; resignação,
evitação e hipercompensação. O nome dos modos foram alterados para “capitulador
complacente”, por exemplo, ao invés de “modo resignação” o que aparentemente
seria mais natural, para justamente evidenciar o apelido ao comportamento e
sentimento específico.
O
capitulador complacente corresponde a criança vulnerável, passiva e desamparada
que se submete ao esquema (“veste a carapuça”) e também aos outros.
O
modo protetor desligado foge do desconforto provocado pelo esquema ativado,
desligando-se psicologicamente do sofrimento, seja abusando do álcool, drogas,
se auto-estimulando, evitando as pessoas, se afastando emocionalmente ou
utilizando outras formas de fuga.
O
modo hipercompensador reage ao esquema ativado tentando refutá-lo através de um
comportamento disfuncional, excessivo, exagerado e desproporcional seja
confrontando as pessoas, maltratando-as, controlando-as ou rejeitando-as : “não
serei um fracasso”, “jamais serei abandonado ou rejeitado”, “contra tudo e
contra todos, eu vencerei”.
Seja
qual for o modo de enfrentamento, todos acabam fortalecendo e perpetuando os
esquemas.
Os
modos de pais disfuncionais são pai/mãe punitivo que pune um dos modos criança
abusada, criança zangada, criança impulsiva por se comportarem mal.
O
outro modo é pai/mãe exigente que pressiona a criança a cumprir padrões
elevados e inflexíveis de conduta e resultados, obrigando-a a se tornar
“exemplar”, “perfeita” e “cumpridora dos deveres” e, se possível, excedendo as
expectativas.
4.
QUANDO
USAR A ABORDAGEM BASEADA EM MODOS
Dr.
Jeffrey Young (Young, 2008) sugere
que o trabalho com modos de esquemas se mostra efetivo quando aplicado nas
seguintes condições:
a. Quando
a terapia parece estagnada e não se consegue quebrar a evitação ou
hipercompensação em relação aos esquemas nucleares e subjacentes. O paciente se
mostra muito rígido e fixado aos padrões de comportamento atinentes aos seus esquemas.
b. Quando
o paciente apresenta um comportamento demasiadamente autopunitivo e autocrítico
indicando que o mesmo modelou (internalizou) um comportamento disfuncional do
pai/mãe. Este modo pune, corrige e critica o paciente praticamente o tempo
todo. Dar nome ou apelidar os modos, neste caso chamando-o de “pai/mãe
sargentão”, por exemplo, ajuda sobremaneira a criar um distanciamento entre as
partes do self do paciente, como o modo adulto saudável e este modo
disfuncional.
c. Quando
dois ou mais modos entram em conflito e desacordo aparentemente insolúvel ou
assumem posições antagônicas criando forte embaraço, confusão e problemas
funcionais ao paciente. Neste caso, é desenvolvido nas sessões diálogos entre
os modos de forma a criar um “acordo entre as partes”, tendo o modo adulto
saudável, desde que bem desenvolvido, atuando como “mediador”.
d. E
quando o paciente apresenta frequentes flutuações de humor e comportamento,
característica de pessoas com transtorno borderline.
Entretanto,
na prática clínica, o trabalho com modos pode e deve ser usado independente dessas
condições, haja visto sua extrema efetividade e resultados relativamente rápidos
e permanentes. A estratégia é a de psicoeducar o paciente de tal sorte que ele
entenda todo mecanismo e dinâmica tanto dos seus esquemas, como dos estilos de
enfrentamento e os respectivos modos, a ponto de discutir de igual por igual
com o psicoterapeuta sobre estratégias de combate e enfraquecimento dos mesmos,
aliando tudo isso com a prática do trabalho com modos nas sessões, empregando
técnicas de Gestalt, Terapia Psicodinâmica, estratégias cognitivo-comportamentais
de acordo com a resposta do paciente, construindo um entendimento intelectual
completo, bem como um distanciamento emocional e uma não identificação com os
seus modos e esquemas (egodistonia), tratando-os como se fossem uma parte
estanque e não desejável da sua personalidade.
5.
DEFINIÇÃO
E DETALHAMENTO DOS MODOS MAIS COMUNS IDENTIFICADOS
Conforme
já apresentado anteriormente, Young e equipe (Young, 2008) identificaram e
classificaram 10 modos agrupados em quatro grupos, a saber:
Modos
criança: criança vulnerável, criança zangada, criança indisciplinada/impulsiva,
criança feliz
Os
modos criança são comportamentos infantilizados apresentados pelos pacientes em
determinadas situações, como resultado do estilo de enfrentamento aos esquemas
ativados principalmente do domínio desconexão e rejeição
(abandono/instabilidade, desconfiança/abuso, privação emocional,
defectividade/vergonha, isolamento social/alienação) e autonomia e desempenho
prejudicados (dependência/incompetência, vulnerabilidade ao dano ou doença,
emaranhamento, fracasso).
Dependendo
das circunstâncias de vida e experiências na infância, o modo criança (podendo
ser um ou mais modos desse grupo), pode ser reprimido ou fortalecido.
5.1 O modo
criança vulnerável
No
modo criança vulnerável ativado, o paciente apresenta um comportamento “amuado”,
inseguro, sentindo-se desamparado, angustiado, sufocado e vulnerável.
O
paciente nesse modo reage como uma criança que necessita de suporte, proteção e
cuidados dos pais, mas que não os recebe.
A
ferida emocional ou necessidades emocionais não atendidas pelos pais podem ter
sido causadas por negligência nos cuidados, a criança permanecendo longos
períodos sozinha, os pais batiam e castigavam em excesso, crítica, desprezo ou
menosprezo, tratamento diferenciado (os pais demostravam mais amor e apreço aos
irmão ou irmão).
O
modo criança vulnerável é o principal modo a ser trabalhado na Terapia do
Esquema, pois é o mais disfuncional e agregador de esquemas.
5.2 O modo criança zangada
A
criança zangada tem um baixo nível de tolerância à frustração e responde de uma
forma impulsiva e raivosa quando percebe que suas necessidades ou vontades não
estão sendo atendidas. O paciente operando nesse modo é irascível e coleciona
muitas histórias e problemas de vida relacionados ao modo em si e aos esquemas
agrupados nesse modo que podem ser: abandono, desconfiança/abuso, subjugação,
privação emocional, etc.
Quando
se ativa um esquema cuja resposta é o modo criança zangada, o paciente sente-se
tolhido, abandonado, subjugado, injustiçado e por isso nutre um sentimento de
vingança, uma raiva acumulada e reprimida a qual é projetada nas pessoas e
situações que o frustraram. Essas pessoas e situações se transformam em
gatilhos dos esquemas e resgatam emoções e memórias dolorosas, remotas, que
criaram esses esquemas e suas reações. É como se o paciente estivesse
vivenciando as mesmas experiências dolorosas da infância.
5.3 Modo criança impulsiva/indisciplinada
O paciente nesse modo age com
impulsividade não para agredir ou se vingar, como no caso da criança zangada,
mas para buscar a sua satisfação e realização dos seus desejos e necessidades
sem considerar as consequências, negligenciando regras e pessoas. Desinibida, irresponsável, livre e
inconsequente, a criança impulsiva também tem baixa tolerância à frustração e
não consegue se sacrificar no curto prazo visando conseguir um benefício no
longo prazo. Uma pessoa funcionando nesse modo é mimada, imatura, descuidada,
preguiçosa, impaciente, sem foco e descontrolada. Os esquemas associados a esse
modo são arrogo/grandiosidade, autocontrole/disciplina insuficientes.
5.4 Modo criança feliz
O paciente nesse modo sente-se amado e
com as suas necessidades emocionais satisfeitas. Esse modo não agrupa nenhum
esquema desadaptativo remoto.
6.
MODOS
DE ENFRENTAMENTO DISFUNCIONAIS
Os
modos de enfrentamento disfuncionais ou “desadaptativos”, são a forma como o
paciente quando criança reagia na tentativa de se adaptar ao ambiente e
circunstâncias que lhe foram prejudiciais e de não ter suas necessidades
emocionais satisfeitas. Na época, esses modos poderiam ser considerados
“adaptativos” uma vez que ajudavam o paciente criança a lidar emocionalmente
com as situações, mas esses modos se sedimentaram e permaneceram até a idade
adulta. Sendo assim, é perfeitamente razoável afirmar que os modos, de uma
forma geral, são uma parte do self que não cresceu e amadureceu.
6.1 Modo Capitulador Complacente
No
modo capitulador complacente o paciente se submete, aceita, “veste a carapuça”
do esquema ativado. O comportamento é passivo, submisso, obediente. O paciente demonstra clara resignação, medo e
ansiedade, nutrindo uma sensação de desamparo e desesperança: “não tem mais
jeito. Meu destino é ser infeliz nos relacionamentos”; “Sou um azarado
fracassado. Nada do que eu tento fazer da certo”. Em geral são muito obedientes e subservientes,
fazendo o possível para não contrariar seja quem for, incluindo o psicoterapeuta.
Acham que não tem nenhuma outra alternativa a não ser agradar as pessoas para
evitar conflito, crítica ou rejeição. Se sujeitam até mesmo serem humilhados,
desvalorizados apenas para manter a conexão (medo do abandono, crítica ou
rejeição) ou algum tipo de retaliação (medo de punição ou de criar problemas
para si mesmos).
6.2 Modo Protetor Desligado
No
modo protetor desligado o paciente usa o distanciamento psicológico ou evitação
do esquema como estilo de enfrentamento. Os indivíduos se desligam de outras
pessoas, se isolam, se encastelam, fecham-se emocionalmente para se proteger de
uma sensação de vulnerabilidade, abandono, fracasso ou defectividade que possam
expô-los. O paciente operando neste modo é como se vestisse uma armadura ou
construísse um fosso ou muro ao seu redor. Sentem-se vazios, desconectados às
situações e pessoas, como se não se importassem, se comportando com cinismo e indiferença:
“tanto faz”, “não estou nem aí pra nada”. Com isso, evitam investimento
emocional em pessoas ou experiências. Os comportamentos típicos são o
isolamento social, indiferença com certo tom de arrogância, pedantismo e
cinismo, busca viciante e contumaz por conforto, fantasias, distração ou
estimulação compulsiva (vídeo games, filmes, música, TV, comida, sexo, compras,
álcool, drogas).
O
modo protetor desligado costuma ser o mais difícil de mudar porque os pacientes
se acostumaram desde criança a se proteger desse jeito de forma que entram nesse
modo automaticamente. É um refúgio, um conforto ilusório, mas que funcionou
muito bem na infância. O problema é que o paciente cresceu, as situações e o
ambiente não são mais hostis ou frios, mas o paciente continua com a mesma
reação e comportamento e desaprendeu (ou nunca aprendeu) a entrar em contato
com suas emoções. O modo protetor desligado é uma reação inconsciente e
automática. O paciente aprendeu muito bem a ser assim e vê mais vantagens do
que desvantagens em mantê-lo, daí a dificuldade em desconstruí-lo ou
enfraquece-lo.
6.3 Modo hipercompensação
Os
hipercompensadores agem como se oposto do esquema ativado fosse verdade. Caso
se sintam fracassados internamente, fazem de tudo para mostrar status de
sucesso e o quanto são bem sucedidos externamente. Podem ficar obsessivos em
mostrar “sinais exteriores de sucesso”. Caso sintam que inexoravelmente serão abandonados,
sabotam relacionamentos e abandonam primeiro. Ao se sentirem subjugados, dominam,
controlam, intimidam e subjugam as pessoas. Ao se sentirem inferiorizados,
tornam-se arrogantes e tentam desvalorizar as pessoas. Alguns podem ser
dissimulados (passivo-agressivos). Fingem obedecer, concordar, mas em segredo
se vingam ou adotam um comportamento rebelde por meio de procrastinação,
reclamação excessiva, crítica, traições, não-cumprimento da palavra. Outros
hipercompensadores são obsessivos, rígidos, inflexíveis, controladores, focados
nas suas próprias regras e planejamento e no cumprimento excessivo de rotinas. Muitos
vilões de filmes (e também da vida real)
são efetivamente hipercompensadores, assim como figuras proeminentes nas mais
variadas áreas como empresarial, artística, esportiva e política.
6.4 Modos pais disfuncionais
Nos
modos pais disfuncionais, o paciente “modelou”, imitou, internalizou
traços, comportamentos e até os esquemas
dos próprios pais. Quando os pacientes estão operando neste modo, tornam-se
seus próprios pais e tratam a si mesmos como os pais os trataram na infância.
Muitas vezes, assumem a voz do pai ou da mãe e repetem neologismos, palavras,
expressões que os pais costumavam falar. Aquela voz interior insistente que
critica e corrige o paciente ou o pune por erros é uma mera repetição do que o
pai ou mãe faziam com esse paciente quando criança.
Young
e equipe (Young,2008) identificaram e classificaram dois tipos mais comuns de
pai/mãe disfuncional (muito embora possam existir outros tipos de modos pais): o
modo pai/mãe punitivo ou crítico e o pai/mãe exigente. O primeiro modo, o
punitivo, critica e pune implacavelmente e com raiva, tolhendo a criança de
suas necessidades emocionais. Os erros são intoleráveis. Os esquemas mais
comuns associados a esse modo são defectividade e postura punitiva. Pacientes
borderline ou com depressão grave comumente operam neste modo. Os primeiros se
punem se cortando por terem se comportado mal, terem sido imorais, indignos de
respeito. Os pacientes neste modo são o próprio pai ou mãe punitiva punindo a
criança vulnerável. Na verdade, os pacientes alternam sendo o pai ou mãe
punitivos ou a criança vulnerável sendo punida por eles.
O
modo pai/mãe exigente pressiona a criança vulnerável para que atinja, e, se
possível, supere as expectativas exageradas, desproporcionais e irrealistas por
eles formuladas. Há uma forma “certa” para tudo e para todos, principalmente
para o próprio paciente, a partir da qual a coisas tem que ser feitas. O
pensamento é maniqueísta, preto e branco, binário. Ou uma coisa é certa ou está
errada, portanto, intoleravelmente falha. O paciente operando nesse modo carece
de espontaneidade. Sente-se pressionado, sufocado e inseguro por medo de
falhar. Pode sofrer de ansiedade de desempenho. Os esquemas associados são
padrões inflexíveis, postura punitiva e auto-sacrifício . Esse modo é muito comum em pacientes com
transtornos narcisistas ou obsessivo-compulsivo. O paciente entra no modo pai
exigente e define os padrões elevados para si mesmo envidando todos os esforços
para atingi-los e, caso não consiga, o paciente sente vergonha da mesma forma
como sentia vergonha por ter decepcionado pai ou mãe e pode ou não se punir,
mas o sentimento de humilhação e vergonha provocam forte sofrimento
psicológico.
Alguns
pacientes podem apresentar uma variação ainda mais complicada, numa forma híbrida
do pai/mãe disfuncional, sendo crítico, controlado, exigente e punitivo ao
mesmo tempo.
6.5 Modo
adulto saudável
Esse
modo é a parte saudável e adulta do self que, na terapia, é orientada a
satisfazer as necessidades emocionais básicas da criança vulnerável, zangada ou
indisciplinada. Construir e fortalecer o modo adulto saudável do paciente de
forma a trabalhar com mais eficácia sobre os outros modos disfuncionais é o
objetivo do trabalho com modos na terapia do esquema.
Embora
a maioria dos pacientes adultos disponha de um modo adulto saudável, muitos são
ineficazes e não colaboram efetivamente para lidar com os modos disfuncionais.
Em indivíduos psicologicamente fortes e saudáveis, o modo adulto saudável predomina
sobre modos disfuncionais e até cura os esquemas. Pacientes com transtornos
graves do Eixo I e II tem um modo adulto saudável fraco e inoperante. Pacientes
com transtorno de personalidade borderline não apresentam o modo adulto
saudável ou os tem “atrofiados”. Cabe ao psicoterapeuta ajudar o paciente
borderline a desenvolver o modo adulto saudável e torna-lo forte, influente e
eficaz na luta contra os modos disfuncionais. O trabalho com modos visa essencialmente
isso.
As
funções básicas do modo adulto saudável no trabalho com modos na terapia do
esquema, e que se chama “reparação parental remota”, são:
a) Proteger,
apoiar e dar carinho a criança vulnerável.
b) Dar
limites a criança zangada e impulsiva/indisciplinada.
c) Combate
e modera os modos pai/mãe disfuncionais.
Uma
estratégia fundamental no trabalho com modos é a troca de papéis entre o psicoterapeuta
e o paciente no desenvolvimento do modo adulto saudável. Ora o psicoterapeuta
assume o papel de adulto saudável na reparação parental, ora o paciente assume esse
papel com o devido suporte. Um dos objetivos no desenvolvimento da relação
terapêutica com o paciente é justamente permitir que o paciente use o psicoterapeuta
como modelo de adulto saudável. Com o tempo, o paciente interioriza esse modelo
e o assume definitivamente para si no combate aos modos disfuncionais.
7.
ESTRATÉGIA
CLÍNICA PARA O TRABALHO COM MODOS. OS SETES PASSOS.
ü Identificar
e dar nomes (apelidar) os modos do paciente.
ü Explorar
a origem dos modos e as vantagens (valor adaptativo) na infância e adolescência.
ü Relacionar
os modos desadaptativos aos problemas e sintomas atuais do paciente.
ü Demonstrar
as vantagens de modificar ou abrir mão de um modo disfuncional.
ü Acessar
a criança vulnerável por meio de imagens mentais e hipnoterapia.
ü Realizar
diálogos entre os modos, invertendo papéis, desenvolvendo o modo adulto
saudável, servindo como modelo de adulto saudável ao paciente.
ü Ensinar
o paciente a usar o modelo de trabalho com modos no seu cotidiano e fora do
contexto da terapia.
8.
CASO
PRÁTICO – Exemplo Clínico
Paciente,
R, 34 anos, solteira, morando sozinha, trabalha como executiva de uma empresa
farmacêutica.
Sua
queixa focava nas questões envolvendo relacionamentos afetivos. Se sentia
frustrada, desanimada, sozinha, deprimida e sem perspectivas de que pudesse
encontrar um parceiro segundo as suas expectativas e idealizações. Ao relatar o
seu histórico de relacionamentos anteriores, foi identificado um padrão
importante no sentido de que ela se mostrava interessada por homens
emocionalmente indisponíveis (que não tinham interesse em manter um
relacionamento estável) e quando um potencial parceiro demonstrava interesse ou
se dizia apaixonado, ela imediatamente perdia o entusiasmo e a motivação, desenvolvendo
até uma repulsa ao pretendente deixando uma evidência de hipercompensação de um
esquema de abandono ou defectividade. Tudo isso seria validado no decorrer das
sessões posteriores.
Pontos
importantes que devem ser considerados no trabalho com modos da terapia do esquema:
a) O
objetivo das três primeiras sessões é mapear todo histórico da infância do
paciente tentando fazer uma correlação com esquemas, as queixas e problemas
atuais, além de desenvolver uma relação terapêutica próxima, empática e de
confiança.
b) Já na
primeira sessão, deve ser entregue como dever de casa, os dois questionários do
Young: o dos esquemas e o dos estilos parentais, mas tente por si mesmo
identificar os esquemas e estilos de enfrentamentos durante as três primeiras
sessões. O objetivo é não ser dependente
dos questionários. Usar as respostas dos questionários apenas como validação das
conclusões e observações prévias. Em caso de divergências, as mesmas devem ser
usadas como elemento de discussão nas sessões.
c) Pacientes com estilos de enfrentamento como a
evitação ou hipercompensação costumam ser dissimulados, não contam detalhes e
tentam encobrir a frustração emocional que tiveram: “minha infância foi
maravilhosa”. Meus pais eram nota mil”. “Não me lembro de nada negativo”.
d) Pacientes
que demoram a entregar as respostas dos questionários tem como provável estilo
de enfrentamento a evitação e operam no modo “protetor desligado”. É importante
ficar atento e trabalhar em cima do comportamento fazendo sempre associações
entre o comportamento do paciente, o histórico familiar dele, com esquemas e
estilos de enfrentamento. Essa dinâmica tem que ser bem entendida e
correlacionada.
Em
relação à paciente R, antes da aplicação do questionário de Young (YSQ-S3 93 Perguntas
– Versão curta) e o Questionário de Estilos Parentais YPQ , foram identificados
os seguintes esquemas:
1. Defectividade
(esquema nuclear ou principal).
2. Privação
emocional (esquema subjacente ao esquema de defectividade).
3. Padrões
inflexíveis (esquema subjacente ao esquema de defectividade hipercompensado).
4. Isolamento
social (subjacente ao esquema de privação emocional como resignação aos
relacionamentos afetivos).
Modos
identificados:
1. R
carente (criança vulnerável). Uma resignação ao esquema principal de
defectividade. “Deve ter algum problema comigo por não conseguir manter um
relacionamento saudável. Não dou sorte nos relacionamentos”.
2. R
fujona (Modo protetor desligado). R se isola socialmente e fica sozinha
“curtindo a fossa” de seus fracassos amorosos. Já até mudou de cidade (de SP
para o RJ) por conta de frustrações amorosas anteriores.
3. R
menina exemplar. Modo hipercompensado do esquema de fracasso, ativado no
trabalho. “Sou azarada no amor. Só me resta me dedicar no trabalho. Pelo menos
consigo ser o orgulho da família em termos profissionais. Comecei de baixo e já
sou gerente. Meu objetivo agora é ser diretora”.
4. Mãe
resignada. Uma variante do modo criança vulnerável. (R. modelou o temperamento,
esquema e estilo de enfrentamento da mãe em se tratando de relacionamentos), se
resignando e aceitando a sua condição de “azarada” e “dedo podre” com
namorados.
5. Adulta
saudável. É a parte do self de R que eventualmente atua, mas que precisava ser fortalecido e se tornar dominante.
No
esquema de defectividade, R sentia medo de ser rejeitada ou de sofrer desilusão
e com isso evitava parceiros com os quais se identificava e demonstravam
“potencial” porque “o risco de sofrer desilusão era maior”, nutrindo uma crença
que ela não nasceu com sorte no amor e que o seu destino é a solidão (modo mãe
fatalista ou resignada). Com isso, mantinha facilmente relacionamentos
superficiais onde o parceiro não demonstrava muito interesse (risco zero de se
decepcionar) mas que acabava ativando o gatilho do esquema de privação
emocional, sentindo-se desanimada, frustrada, deprimida, desiludida (modo
criança solitária/vulnerável). Com o estilo de enfrentamento hipercompensado no
esquema de privação emocional, ela era muito exigente, crítica com amigos,
pessoas e ambientes, ativando um outro esquema subjacente que vem a ser o isolamento
social cujo estilo de enfrentamento (evitação) reforçava o comportamento
solitário e excludente (modo criança solitária/vulnerável).
No
trabalho, R se dedicava, era ambiciosa, confiante e exigente, não lembrando em
nada a R dos relacionamentos afetivos. Sua
performance e comportamento no trabalho mostrava uma tentativa de
hipercompensar o sentimento (esquema) de menos valia, e defectividade como
mulher; “compenso as minhas frustrações amorosas me dedicando à carreira e ao
trabalho”.
Foram
usadas as respostas dos questionários de estilos parentais como elemento
importante no trabalho de memórias remotas com a aplicação da técnica de
imagens mentais.
Questionada
sobre as condições de vida na infância e a relação dela com os pais e irmãos, a
princípio ela dizia que a infância tinha sido difícil por conta das limitações
financeiras, haja visto que ela tinha mais três irmãos (duas irmãs mais velhas
e um irmão também mais velho, sendo ela a “caçula”) e o pai (ausente por conta do trabalho) insistia em pagar colégio
particular para todos e isso impactava negativamente na qualidade de vida da
família. Havia muitas restrições financeiras e materiais, mas os pais, em
função disso, foram “maravilhosos” e ela não tinha do que se queixar.
O
pai, portanto, ausente e com provável esquema de privação emocional, não
demonstrava sentimentos, nem fora amoroso ou até mesmo empático com R. A mãe
apresentava um esquema de auto-sacrifício. Se portava como “mártir”, resignada.
Não se queixava propriamente do marido, mas das condições de vida por conta das
dificuldades. Era a sua missão cuidar os filhos da melhor forma possível.
R
relatou que algumas vezes a mãe oferecia o bife do próprio prato aos filhos e
repartia em pedaços iguais para todos evidenciando claramente o esquema de auto-sacrifício.
8.1 Pontos importantes:
É
fundamental tentar identificar os esquemas tanto do paciente como dos pais, mesmo
antes da aplicação dos questionários, os quais servirão apenas como validadores
das impressões do psicoterapeuta. As divergências seriam objeto de elementos a
serem abordados nas sessões. Conhecer bem o ambiente e as condições de vida e
relacionamentos familiares do paciente na infância também é fundamental. Em geral se levam 5 a 7 sessões
desenvolvendo esse tópico (avaliação, levantamento de hipótese diagnóstica,
aplicação dos questionários, validação dos questionários, entendimento
detalhado e profundo do universo familiar remoto do paciente).
Deve
ser feita uma correlação entre as respostas dos questionários com as
observações nas sessões e a hipótese diagnóstica.
O
questionário de estilo parental muitas vezes se mostra mais conclusivo em
comparação com o questionário dos esquemas, no entanto, ambos devem estar
coerentes e se complementarem. Pacientes com estilos de enfrentamento
hipercompensado ou de evitação podem não responder com coerência o questionário
dos esquemas, mas o questionário de estilo parental parece mais revelador. Eles
se sentem mais à vontade em responder sobre os pais do que sobre si mesmos.
Trabalhando com modos.
Após
a identificação dos esquemas principais e subjacentes e os estilos de
enfrentamento, faz-se a identificação dos principais modos do paciente começando
por seguir os sete passos.
9.
TRABALHANDO
OS SETE PASSOS COM R
Passo 1: Identificando e dando
nomes (apelidos) aos modos
Esse
processo é feito “em comum acordo” entre o psicoterapeuta e o paciente no
decorrer das sessões e com o avanço do entendimento do paciente sobre o conceito
dos modos. O paciente tem que entender o conceito. Perceber que “faz sentido”.
Com isso, ele mesmo começará a sugerir nomes e apelidos jocosos e até ofensivos
a respeito dos seus modos. E ele também ajudará a identificar os seus próprios
modos. É muito importante que o psicoterapeuta estimule e induza o paciente a
identificar os seus próprios modos e sugerir os apelidos. No caso da paciente
R, ela ajudou a identificar a R fujona, a R carente e a R mamãe resignada ou fatalista.
A adulta saudável foi apresentada, identificada e fortalecida ao longo das
sessões, já que era uma parte até então não identificada por ela, mas que
efetivamente existia.
Passo 2: Explorando a origem
dos modos de R e o valor adaptativo deles ao longo da infância e adolescência.
Após
a identificação e “batismo” dos modos, explora-se a origem dos mesmos
relembrando fatos e situações da infância de R que contribuíram para o
surgimento do esquemas e consequentemente dos modos e os estilos de
enfrentamento. O uso de imagens mentais com relaxamento profundo ajuda
sobremaneira o paciente a lembrar das suas experiências remotas. Pode haver
resistência por parte do paciente em acessar essas memórias, por terem sido
muito dolorosas, traumáticas ou vexatórias. Cabe ressaltar que a lembrança
dessas memórias ativam os esquemas dos pacientes e, portanto, devem ser
tratadas com cuidado e o máximo de compreensão empática evitando que o paciente
repita os estilos de enfrentamento que usualmente recorre. O ponto fundamental
neste passo do trabalho com os modos é ativar os esquemas dos pacientes sem que
os mesmos se utilizem dos mecanismos de defesa e estilos de enfrentamento usuais,
portanto, ele se sentirá exposto e vulnerável. A relação terapêutica, a
cumplicidade e a confiança mútua tem um papel fundamental nesta fase do
trabalho. No caso de R, houve uma resistência inicial. Ela negava que pai ou
mãe fossem os responsáveis pelo seus esquemas. A princípio eles eram
“maravilhosos e perfeitos” e ela não conseguia correlacionar suas experiências
na infância, na relação familiar com os seu esquemas, estilos de enfrentamento
e modos. Foram através das respostas ao questionário de estilos parentais que se
conseguiu mostrar a R as contradições e assim, ela compreendeu perfeitamente o
valor adaptativo dos seus modos naquelas circunstâncias e conseguiu fazer as
correlações necessárias com as situações e comportamentos atuais. A conclusão
de R sobre essas questões foi uma prova de que ela entendeu perfeitamente e
conseguimos desconstruir a resistência inicial: “Quer dizer que eu, operando
com esses modos agora, já adulta, é como se eu fosse ainda criança e reagisse
como eu reagia naquela época ?! É uma parte de mim que não cresceu, amadureceu
! “
Passo 3: Fazendo a correlação
entre os modos e o comportamento, problemas e sintomas atuais.
O
modo criança carente ou a R “fujona” foram os modos adaptativos que R criou
para lidar com a crítica, indiferença e a frieza dos pais no trato de suas
questões emocionais, bem como as frustrações não atendidas na infância e que se
perpetuarem até o momento. A forma pessimista e fatalista como enxergava os
relacionamentos foi modelado da mãe que agia do mesmo jeito em relação ao
marido (seu pai). Como consequência da resposta aos esquemas de defectividade, R
acaba sentindo-se atraída por parceiros com esquemas de privação emocional,
portanto, frios, distantes, desconectados, críticos e pouco empáticos, cópias
exatas do pai. R percebeu que esses parceiros lidavam com ela da mesma forma
como o pai lidava. Parceiros potencialmente adequados, afetivos e maduros
acionavam o gatilho do esquema de defectividade com resposta hipercompensada
(criança fujona). Ela os criticava e subestimava, terminando por rejeitá-los, sabotando
a relação. Já para os parceiros “frios”, a resposta ao esquema de defectividade
era a de resignação (criança carente). Ela superdimensionava as qualidades ou
até mesmo via qualidades que não existiam e subdimensionava os defeitos (como
fazia com os pais). Lembrando que no início das sessões, R dizia que os pais
eram “maravilhosos”, “calorosos”, “fantásticos”. Esses parceiros frios e
distantes a tratavam com desdém, indiferença, crítica ou menos valia, como os
pais, em especial o pai, costumava fazer.
Passo 4: Demonstrando as
vantagens de modificar ou abrir mão dos modos disfuncionais.
R descobriu por si própria que não
há vantagem alguma em manter-se operando nos modos disfuncionais e que eles, na
realidade, perpetuam os esquemas e trazem sofrimento psicológico e não oferecem
qualquer tipo de defesa ou proteção como ocorria na infância. É primordial
induzir e facilitar o paciente para que ele mesmo consiga chegar a essa
conclusão para em seguida focar nas vantagens em abandonar ou desconstruir os
modos, estratégia essa que, a essa altura, fica muito mais evidente para o
paciente. Neste estágio da terapia, o paciente já avançou e progrediu e vem
experimentando e percebendo essas vantagens tanto ao nível intelectual como
emocional, mediante o trabalho de regressão (imagens mentais) agora com a intervenção
no modo “criança solitária/carente” por parte do psicoterapeuta e do próprio
paciente através do fortalecimento gradual do modo “adulto saudável”,o que
veremos a seguir.
Passo 5: Acessando e
trabalhando com a criança solitária e vulnerável de R.
Esse
passo é o mais importante e o que efetivamente provocou a mudança em R. É o
momento em que “a ficha cai” e o paciente não mais se identifica com o modo criança
vulnerável/carente, pelo contrário, o paciente o enxerga como uma parte com a qual não quer mais conviver e muito
menos fortalecer. O modo adulto saudável repara essa parte do self do paciente
toda a vez que se manifesta até o ponto em que não mais será necessária uma
intervenção muito direta. O paciente funcionará no modo adulto saudável na
maior parte do tempo, sendo ele próprio o seu psicoterapeuta.
R
concluiu que o seu modo criança carente estava reforçando e perpetuando sua
condição em relação aos seus relacionamentos afetivos. Como estratégia de
combate, foi reforçado o exercício da auto-observação e atenção plena (mindfulness)
de forma que R pudesse mapear os gatilhos e perceber quando a criança carente
fosse ativada e, com isso, respondesse de modo adequado e funcional usando a
sua parte equilibrada e sábia (adulto saudável) para orientá-la na
circunstância e nos julgamentos.
Foi
usada a técnica da cadeira vazia onde R, operando no modo adulto saudável,
acolhia e atendia as carências da R (criança vulnerável). Primeiramente R é
induzia a lembrar de uma situação no passado que ativava o modo criança carente
para em seguida, já no modo adulto saudável, pudesse acolher essa parte de si
mesma.
Antes
de chegar a esse estágio, o psicoterapeuta faz o papel de adulto saudável e
acolhe a “pobre R carente e vulnerável”. Com o passar das sessões, é ativado mais e mais o modo criança carente,
ao mesmo tempo em que o modo adulto saudável entra em cena e atende ou tenta compreender
e reparar a ferida emocional dessa criança vulnerável. Sendo assim, há uma
dessensibilização natural do sofrimento da criança carente, há um
fortalecimento do modo adulto saudável de tanto que ele aparece e maneja as
situações do passado revividas nas sessões. A estratégia é como se as histórias
desse passado de R fossem recontadas e tivessem um desfecho ou conclusão
diferentes, no caso, uma conclusão ou desfecho favorável ao crescimento
emocional e psicológico de R.
O
passo 5 é o resultado natural de tudo o que foi feito nas sessões até aquele
momento e não se constitui num passo isolado. Não se consegue chegar a este
estágio da psicoterapia sem que antes tenham sido trabalhado todos os outros
passos e procedimentos. Não obstante o passo 5 é um resultado natural do
trabalho com modos e um indicador fundamental da evolução e cura do paciente, esse
passo 5 pode (e deve) durar várias sessões.
Passo 6: Realizar diálogo
entre os modos. Desenvolvendo o adulto saudável de R.
Se
no passo 5 se acessa e trabalha incessantemente a criança vulnerável/carente de
R provocando uma dessensibilização e até uma “banalização” dos fatos passados e
consequente reações emocionais, R não via mais esses fatos como “bicho papão”
ou algo tão doloroso assim. A sensação é de que foram fatos e situações que lhe
pareceram difíceis e traumáticos, mas que agora, sob o olhar do modo adulto
saudável, se mostraram perfeitamente manejáveis.
O
diálogo entre os modos criança vulnerável e adulto saudável pode ser feito
através de diversas técnicas dentre as quais se destacam: Psicodrama, Gestalt
ou Hipnoterapia.
No
caso em questão foi preferido usar uma
abordagem gestáltica, promovendo diálogos entre os modos, fazendo “role play” e
aplicando a técnica da cadeira vazia onde R era o adulto saudável, acolhendo
empaticamente sua parte carente, representada pela cadeira vazia. O relaxamento
médio/profundo do paciente por meio de hipnose, para então realizar esses
diálogos entre o modo adulto saudável e o modo criança vulnerável/carente, também
se mostrou muito efetivo e foi utilizado. A paciente respondeu bem em ambas
abordagens, entranhando um pouco, no início,
as técnicas gestálticas, mas tendo depois se acostumado e aderido com
entusiasmo e naturalidade. É importante que o paciente esteja “aquecido” antes
de começar o trabalho gestáltico, caso contrário, ele pode se sentir
desconfortável e não aderir.
Da
mesma forma como ocorre em todos os passos, em especial no passo 5, o passo 6
também pode levar várias sessões. Não se deve apressar esse procedimento.
Passo 7: psicoeducar R para
que use o trabalho com modos em situações de vida fora as sessões.
Esse
passo se torna quase como um resultado natural desse trabalho com modos. O
paciente ganha uma enorme expertise em relação aos procedimentos e ao conceito
em si de forma que pode perfeitamente usá-los em situações fora do escopo da psicoterapia.
R aprendeu a se manter consciente o tempo todo através dos exercícios de
atenção plena (mindufulness) de forma a se observar com profundidade. Quando as
experiências se mostram desafiadoras, R percebe as suas reações emocionais e
físicas, bem como o seu comportamento e se pergunta: “em que modo estou
operando agora?” Na prática da auto-observação, R aprendeu que a observadora é
o seu modo adulto saudável e portanto, ela corrige reações e comportamentos
relativos as experiências, operando efetivamente nesse modo (“a minha parte
sábia”, diria R).
10. A REESTRUTURAÇÃO DOS ESQUEMAS DE R POR
MEIO DO TRABALHO COM MODOS
Ao
longo de 8 meses e 16 sessões, o nível de autoconsciência de R aumentou
drasticamente. Ela desenvolveu um distanciamento psicológico dos modos
disfuncionais e dos esquemas correspondentes, não mais se identificando com os
padrões de comportamento que provocavam sofrimento, instabilidade emocional e
distorção cognitiva. A parte saudável do self (adulto saudável) predominou
sobre os modos disfuncionais que se tornaram fracos, quase inoperantes. Quando
uma situação ou experiência ativa um gatilho de um esquema disfuncional, a resposta
ao esquema é funcional, adequada, coerente e equilibrada, fazendo com que R
tenha mais controle sobre suas reações, comportamento e sua vida,
principalmente na escolha de parceiros em relacionamentos afetivos. R se
comprometeu com o psicoterapeuta a mantê-lo informado quanto aos seus
progressos, principalmente em relação a esse aspecto da sua vida
(relacionamentos afetivos). Foram combinadas sessões “avulsas” caso sejam da
vontade dela que demonstrou plena convicção de que saberá lidar com suas
questões e desafios simplesmente aplicando tudo o que aprendeu ao longo da
psicoterapia no trabalho com modos.
CONCLUSÃO
O
trabalho com modos, como parte fundamental da terapia do esquema, transparece
ser eficiente e representa um avanço na abordagem clínica-terapêutica dada a
sua efetividade e profundidade. Requer prática e experiência no manejo,
principalmente em termos de estudo de Psicodinâmica, Terapia Cognitivo
Comportamental, Hipnose e Gestalt e pode muito bem ser aplicado como linha de
trabalho principal do psicoterapeuta cobrindo os mais diversos casos clínicos.
A quebra de padrões de comportamento pela não identificação com esses padrões
ou “modos” se mostrou consistente e à prova de recidiva. Além disso, o paciente
aprende a usar a técnica para situações práticas e experiência de vida pós-terapia,
proporcionando um aumento considerável do seu nível de consciência, maturidade
e inteligência emocional, operando no modo “adulto saudável” na maior parte do
tempo, tornando esse paciente o seu próprio psicoterapeuta.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre: Artmed, 2008
WAINER Ricardo,Terapia Cognitiva Focada em Esquemas: Integração
em psicoterapia. Porto Alegre: Artmed, 2015
GERLACH K. Peter. We have many
personalities subselves. Disponível em: http://sfhelp.org/gwc/personality.htm
ROWAN Jonh, Discover Your
Subpersonalities: Our Inner World and the People in it, London:
Routledge,1993
ALFASFOS Lubna - The Early
Maladaptive Schemas and their Correlations with the Psychiatric: Symptoms
and the Personality Accentuations for Palestinian Students. 152f, 2009.
Dissertation: Submitted to the Psychology Faculty of Hamburg University in Partial
Fulfillment of the Requirement for the Degree of Doctor of Philosophy, Hamburg
YOUNG Jeffrey E. & Klosko, J.S., Reinventing your life. New York: Plume, 1994
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